PONTES, Cleto Brasileiro. Hospital Psiquiátrico, Seis Séculos de História. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2006.
“Loucura, Desculpa para o Descaso e a Prisão.”
O psiquiatra Cleto Brasileiro Pontes, professor da Faculdade de Medicina (Universidade Federal do Ceará), doutor em Sociologia e pós-doutorado em Psiquiatria (França), no livro Hospital Psiquiátrico- Seis Séculos de História, faz um esquadrinhamento das instituições psiquiátricas através dos tempos, como e porque surgiram essas instituições, e qual sua verdadeira finalidade. Em 13 capítulos incluindo a introdução, Cleto viaja através da história destacando fatos e acontecimentos que convergiram para a fundação das instituições asilares no ocidente, desde a Espanha, até chegar ao Ceará. No décimo terceiro capítulo que trata da criação dos asilos cearenses, Cleto teve como colaborador nas pesquisas de campo o professor Odailson Silva, psicólogo e formado em História pela Universidade Estadual do Ceará.
Na Espanha, o primeiro hospital psiquiátrico ocidental foi criado em 1409, pelo Frei Juan Gilberto Jofre. Motivos políticos, como a reconquista pela Espanha de seus territórios, e a necessidade de fazer prevalecer os dogmas cristãos para o povo, tornaram na Espanha a idéia dos asilos inovadora, o assistencialismo predominava, visto que a igreja era mantenedora principal dessas instituições, e o tratamento aplicado aos desajustados mentais, era moral (baseado na religião) e físico (baseados em castigos corpóreos).
A história dos hospitais psiquiátricos no mundo é turbulenta, países como Portugal, França, Inglaterra e Alemanha, esta última pioneira da psiquiatria humanitária, tiveram seus estudos sobre psiquiatria podados pelo assistencialismo religioso, por questões políticas e interesses pessoais que se sobrepunham a cientificidade. A história com suas nuances mostra que os hospitais psiquiátricos desde a sua criação servem a um único objetivo, tirar de circulação pessoas com desequilíbrio mental e/ou desajustados sociais para a limpeza da sociedade, e isso não é e nunca foi uma questão de saúde, mas de natureza organizacional. Política e religião agiam como catalisadores da verdade, difundindo uma cultura de aprisionamento e reclusão para os ditos loucos da época, onde lhes era dado só o mínimo para uma subsistência, que chegava a ser cruel e desumana. Uma prova disso é a fundação do primeiro hospital psiquiátrico brasileiro,em 1852,na capital do império, Rio de Janeiro, para onde foram levados os prisioneiros, aqueles que viviam nas ruas e alguns pacientes tratados na Santa Casa de Misericórdia, o que se pode constatar que a criação desses hospitais não era bem de “hospitais”, mas de uma cadeia pública com assistência hospitalar.
No Ceará, o primeiro hospital do estado é construído na Serra Grande, uma espécie de pousada, que acolhia aos missionários. Evitar o contato desses missionários com os povos indígenas e a miscigenação das raças, fazia parte da intenção hospitalar tão bem aplicada em termos religiosos. Já o primeiro hospital de Fortaleza funcionava em um paiol de pólvora desativado do Forte Nossa Senhora da Assunção. A Santa Casa de Misericórdia quando da sua fundação, funcionava como Liceu, atendendo a vontade dos ricos da época, e só depois de duas epidemias de cólera no século XIX, é que os pobres e infelizes passaram a ser atendidos na Santa Casa , que passou a ser de Misericórdia.
No ano de 1877, uma grande seca assola o Ceará, mais de mil mortos são contabilizados por dia. Nesse mesmo ano é lançada a pedra fundamental do Asilo dos Alienados, na localidade indígena chamada de Arronches. Aqui ao contrário do que houvera no resto do mundo, a loucura simboliza o progresso, muito embora o poder público e a medicina local, não soubessem como tratar seus loucos. Por muito pouco, a construção que seria o monumento ao progresso em Fortaleza, não se transforma em abrigo para flagelados e graças a um surto psicótico de um soldado de guarda, a idéia de hegemonia existente nos alencarinos, e a influência da psiquiatria francesa, isso não acontece, e em 1º de Março de 1886, é inaugurado o Asilo dos Alienados, depois denominado Hospital São Vicente de Paulo. Quando da inauguração, o asilo contava com 15 internos, mas no final do século XIX, chegou a comportar 3.000 internos, que na sua maioria era de pobres, pedintes e prostitutas, confirmando assim a idéia de que os asilos eram na verdade uma forma “diplomática” e legal de tirar do meio da sociedade, pessoas que não se encaixavam nos ditames da época, a era da limpeza, o culto ao belo e perfeito.
Partindo da idéia de que um hospital psiquiátrico é uma instituição de saúde, o que se pode observar através da história, como mostra Cleto Brasileiro Pontes em seu livro, é que houve um grande desvio ideológico desde a criação dessas instituições para acolher doentes mentais. A saúde no ambiente asilar era o que menos importava desde que a sociedade ficasse livre do inconviniente de ter um agitado ou louco a solta.
Os hospitais psiquiátricos através do tempo acabavam se transformando em masmorras, onde a sujeira de uma sociedade era jogada para apodrecer. A saúde que ali devia se encontrar se transformava em doença para a alma e o corpo do interno.
A loucura desde o primórdio dos tempos é desculpa para o descaso e o encarceramento de seres menos favorecidos.O assistencialismo religioso que marcou o surgimento das instituições asilares, foi substituído pelo assistencialismo caritativo com fins lucrativos e sociais, visto que o maior problema que assola a sociedade hoje, são os psicotrópicos, geradores dos loucos da atualidade.As casas de recuperação de drogados, hoje não passam de instituições asilares modernas ,onde o estado e a família jogam os loucos modernos, na sua grande maioria jovens viciados( pobres e ricos) infratores da lei, no sentido da cura e ressocialização, coisa que dificilmente acontece, haja vista que esses ambientes são viciados e corruptos.
Graduando do Curso Tecnológico de Recursos Humanos, Antonia Conceição Galvão de Lima.
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