VERÍSSIMO, Luís Fernando. As Mentiras que os Homens Contam Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2001.
(Crônica: A Verdade, pag.125)
“AS Mentiras que as Verdades Contam”
Autor e Obra
Luís Fernando Veríssimo: jornalista, cronista, cartunista e roteirista, é um dos mais populares escritores brasileiros da contemporaneidade. Nasceu em Porto Alegre em 1936, onde mora até hoje. Gosta de viajar e usa com maestria a arte da observação a favor de suas obras. De humor refinado, aliado a uma visão crítica traduz com simplicidade e inteligência o cotidiano brasileiro em suas inúmeras obras, que são de leitura fácil e entendimento rápido, visto que o assunto principal é sempre a vida com suas vicissitudes.No livro As Mentiras que os Homens Contam,Veríssimo traz as facetas que envolvem as mentiras contadas pelos homens, quando e porquê as contam, justificando ou multifacetando uma verdade milenar a saber: a verdade sempre aparece.Na crônica : A Verdade, ele mostra como uma mentira pode tornar-se uma verdade poderosa, capaz de levar pessoas à ações e julgamentos, culminando muitas das vezes com a “morte”.
Pontos Principais
No bojo da crônica, a verdade é uma mentira contada por certa donzela, que ao perder seu anel de diamantes em um riacho, com medo de ser castigada, diz para seu pai e irmãos que havia sido roubada por um homem que lhe tirara o anel e a deixara desfalecida no bosque, por que mentir quando podia dizer a verdade? Imediatamente, pai e filhos saem a procura do suposto ladrão, e encontrando um homem dormindo no bosque, matam-no, sem perguntas prévias ou investigação a cerca do caso. A posteriore é constatado não haver anel com o mesmo e a donzela em apuros se vê obrigada a mentir mais uma vez, acusando um segundo homem que morre da mesma forma que o primeiro sem julgamento ou direito a defesa, o que deixa bem claro o poder da mentira sempre vitoriosa, não por ser criativa, mas pela falta de inteligência do seu pai e irmãos, incapazes de analisar justamente a situação.Assim acontece na vida real,muitas vezes por causa de uma mentira nos é usurpado o direito de defesa, o direito a vida,o direito aos sonhos, simplesmente por soberba dos que se julgam capazes de julgar o que seja verdade.
Com o segundo homem morto e, o não aparecimento do anel, a donzela se vê obrigada a mentir mais uma vez e cria um terceiro assaltante, desta feita, seu pai e irmãos não matam o homem, um pescador, que é encontrado no bosque com o anel da donzela no bolso. Diz o ditado: de tanto mentir, o mentiroso passa a acreditar na mentira que conta. Neste caso a donzela é auxiliada pelo que se pode chamar de coincidência temporal, acontecimento em que ficção e realidade se chocam em determinado momento fazendo prevalecer ou um ou outro sem interferência dos agentes criadores, no caso citado, a própria donzela, que se espanta ao ver seu anel com o pescador, preso e levado a julgamento sendo condenado à morte por enforcamento. O pescador nesse momento usa de ousadia e inteligência e acusa a donzela de ser leviana, fazendo crer aos aldeões que a mesma era impudica e desonrada. No “Górgia, Platão declara que:” “a sua arte, a arte da oratória, produz a persuasão que nos move a crer sem saber...” mais ou menos como no jornalismo moderno onde nem sempre a verdade dos fatos é levada em conta, somente o sensacionalismo de que é revestido num determinado fato tornado notícia. Assim agiu o pescador, sabendo que a honra de uma mulher valia uma vida naquela sociedade, baseou sua mentira na crença e no senso comum dos aldeões para que ele fosse libertado e, sua algoz condenada. Porém antes de morrer a donzela diz para o pescador que a mentira dele era maior que a dela, e que assim como matavam motivados por ela,agora matavam por ele e pergunta onde esta a verdade no final.” A verdade jaz num abismo”, segundo o filósofo grego Demócrito da corrente eleática (cerca de460 - 370 a.C). No que se refere a isso o pescador sem muito interesse responde que encontrara o anel na barriga de um peixe. Mas quem iria acreditar? Eis o abismo de Demócrito.
Em nosso cotidiano muitas vezes somos “obrigados” a agir como o pescador, mentir para nos livrarmos das mortes sociais e emocionais que algumas situações nos impõem. Ora para manter um emprego, ora para não perder um amigo ou um grande amor, ora para livrar aqueles a quem amamos de algo, acabamos transformando a mentira em válvula de escape, para não sermos “julgados e condenados” por uma sociedade onde a maior verdade é que tudo é uma grande mentira. Exemplo disso é a política brasileira que não precisa de comentário visto que tudo acontece de forma muito explícita e, ainda há quem diga que vivemos em uma democracia. Empresas falseiam balanços, caso como o do Banco Pan- Americano onde o seu principal acionista, também dono da emissora SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), Silvio Santos, foi lesado por seu próprio sobrinho em um desfalque milionário. A mídia endeusa semi-analfabetos como o jogador Neymar, um mau exemplo dentro do futebol brasileiro para nossos jovens que já teve outros semi-analfabetos deuses, mas que pelo menos eram carismáticos e supostamente educados no trato profissional; a mídia também cria e destrói heróis como no caso do Sociólogo Betinho e nos desastres ambientais que assolam o país, e no final acaba tudo “bem”, todos ilesos e absolvidos.Como afirma Elis Regina na canção Como Nossos Pais, ”nossos ídolos, ainda são os mesmos, e as aparências não enganam mais”. A letra fala de mudanças, mas as mentiras que as verdades contam são outras, por isso é preciso ser ousado e inteligente como o pescador, para que possamos reverter esse quadro de mentiras revelando a verdade sem hipocrisia. Quem acreditaria realmente, na aldeia, que o pescador havia encontrado o anel na barriga do peixe? Provavelmente, ninguém.
Análise Crítica
Em que consiste “uma verdade” ou a verdade? Para a corrente filosófica sofista a verdade nada mais é, do que aquilo em que o ser humano acredita desde que persuadido a acreditar. Para Sócrates (469-399 a.C) filósofo grego que pregava o pensamento livre, a verdade estava dentro de cada homem que deveria buscá-la como a uma religião. Para Cristo a verdade é vida. Já para Veríssimo na crônica, a verdade é a mentira vista com naturalidade e aceitação na sociedade de hoje, tornando-se objeto de uso contínuo e indefinido. Assumir certas mentiras pode evitar desastres irreparáveis na vida de pessoas inocentes, mantê-las , ao contrário ,pode trazer conseqüências devastadoras, dependendo do tamanho da mentira para quem se conta e para quê fim a usamos. Não concordamos com a mentira visto que suas conseqüências são sempre funestas, não defendemos a mentira apesar de fazermos uso dela vez por outra no nosso cotidiano. Lutamos pela verdade! Sim, dentro do realismo do cotidiano afetado por uma vasta rede de informações que tende a manipular opiniões e, agregar valores condicionados tanto para o bem quanto para o mal, um bom exemplo disso é a lei da menoridade no Brasil, onde um menor não pode ser preso ao cometer um delito, mas pode escolher um presidente. Partindo da idéia de que nos dois casos ele usa a “consciência” para a tomada da decisão, onde cabe então a verdade? No tocante a sua incapacidade por causa da idade? Via de regra acreditamos que quem diz não mentir, já está mentindo, já mentiu ou mentirá algum dia. Pedro negou a Cristo três vezes, assumindo depois para o próprio Cristo, que poderia ser preso se dissesse a verdade, e Cristo o perdoou. O diferencial de toda e qualquer mentira é sempre o motivo que leva a crer numa verdade, ou na verdade. Coincidentemente, Pedro e o pescador tinham a mesma profissão e mentiram para se salvar.
Graduandos do curso Tecnológicos de Recursos Humanos: Alcinéia Gonçalves, Andreza Goes, Conceição Galvão, Deyse Castro e Valéria Silva.